O caminho e ensinamento como orientação para a liberdade espiritual

O Buddha encoraja que usemos bem o tempo que passamos aqui na Terra… porque somos só passageiros.  Por Dhammiko Bhikkhu.

Mas Gotama alertou o jovem brâmane Nālaka:

“Lembra-te que o caminho do sábio tranquilo é um caminho árduo: difícil de realizar, difícil de seguir. É fundamental permanecer firme e ser forte”.

Samyutta Nikāya 3 (Vs 701)

(4.) “Ainda que um nobre discípulo tenha reconhecido claramente com correcta sabedoria, como os prazeres sensuais providenciam pouca gratificação, muito sofrimento, muito desespero e quão grande é o perigo neles, enquanto ele ainda não atingir o arrebatamento e o prazer independente dos prazeres sensuais bem como dos estados nefastos, ou enquanto ele não atingir algo mais pacífico do que isso, ainda poderá ser atraído para os prazeres sensuais.”

Majjhima Nikāya 14

Quando em 2002, três anos antes de me ordenar, um estigma maior me impelia e pressionava na direcção espiritual, eu já sabia, intuitivamente ou não, que existe outra realidade onde existimos que não esta aqui num corpo físico na Terra, por mais difícil que isso fosse de explicar.

Esta vida, no entanto, por mais difícil que esteja a ser, para além de toda a miséria, tristeza, lamento, dor e sofrimento, oferece-nos ainda assim e também ao mesmo tempo, a possibilidade de nos libertarmos espiritualmente e realizar uma relativa felicidade e prazer, através e além dos próprios sentidos físicos, se soubermos gerir a nossa vida sabiamente.

Intuir, pressentir essa dimensão e tudo o que possa existir para lá do que os sentidos físicos nos permitem ver, sentir e ouvir, apresentou-se-me a determinado momento de grande importância espiritual, não como algo distante, mas como parte desconhecida desta mesma realidade em que vivo, tão premente de conhecer.

Isso não me fez menosprezar a vida física material, mas antes pelo contrário, expandiu a necessidade de compreender melhor esta vida aqui, a mim próprio, ao meu corpo, ao meu karma, condição, situação, bem como o sentido maior da vida, percebendo o que estou aqui a fazer e porquê.

É neste ponto que o Caminho e Ensinamento prático do Buddha tem tanto para oferecer como orientação no sentido da liberdade espiritual. Só que essa liberdade não se obtém nem se realiza sem uma luta… a luta pela nossa liberdade.

A determinada altura, apercebi-me e compreendi que por detrás de todo o condicionamento da minha vida, existe o que se chama Karma (Sânscrito) / Kamma (Páli) no Ensinamento Oriental. Foi esta noção de Karma que me ajudou a aceitar e assumir a minha própria responsabilidade em relação a certo condicionamento e sofrimento da minha vida, a começar pelos momentos mais difíceis.

A nossa actual civilização, rebaixada a uma sobrevivência e diletantismo financeiro e emocional, condiciona-se, à margem de uma genuína entre-ajuda e fraterna educação, a um contínuo desgaste competitivo e cilindrante ao nível daquilo que o Buddha discriminava como os principais obstáculos à vida mais espiritual – a ganância, a cobiça, o ódio, a raiva, a vaidade, o egoísmo, a ilusão pelo prestígio, a ignorância, o apego e a prisão emocional a isto tudo.

A única forma de conseguir ultrapassar estes obstáculos é não só os reconhecer dentro de nós, como logo a seguir abandoná-los. E é por isso que o caminho não é fácil, nem de encontrar, nem de realizar. Porque primeiro, tem que ocorrer esta voluntária e honesta purificação inicial, que o ego na sua ambição e vaidade não gosta, sem a qual o/a aspirante não se conseguirá libertar dos primeiros obstáculos que constituem a prisão e o karma negativo. 

Podes ler este artigo na íntegra na nossa revista #2 de Budismo, uma resposta ao sofrimento.


Ajahn Dhammiko

Ajahn Dhammiko

Nasceu em Lisboa em 1969. Com uma ligação forte ao Campo e à Natureza, fez parte da Associação de Conservação da Natureza – Quercus de 1990 a 1995. É engenheiro agrónomo, especializando-se nas áreas da Agricultura Biológica, Plantas Aromáticas/Medicinais e Óleos Essenciais. Em Abril de 2003 visitou o Mosteiro Budista Amaravati em Inglaterra pela primeira vez. Ordenou-se como Samanera (monge noviço) a 15 de Maio de 2005 e como Bhikkhu (ordenação completa) a 9 de Julho de 2006, sendo seu Preceptor – Ajahn Sumedho. Desde 2013 que se encontra em Portugal no Mosteiro Sumedhārāma. 

Revista #2 Dezembro 2020

Revista #2 Dezembro 2020

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